O Valongo Online teve acesso a cinco comunicados enviados pela Be Water Águas de Valongo à Administração da Região Hidrográfica do Norte (ARH Norte) entre 31 de julho e 25 de agosto, no âmbito das obrigações do Título Único Ambiental (TUA20230328001004) da ETAR de Ermesinde e Alfena. Os documentos, partilhados pelo vogal Armindo Torres Ramalho depois da denúncia que apresentou na reunião de executivo da Junta de Freguesia de Ermesinde de 16 de setembro, mostram que a estação de tratamento vinha a descarregar efluente em excesso para a linha de água através de um sistema de bypass a montante da instalação — semanas antes das medições de sulfureto de hidrogénio que motivaram a denúncia pública.

A 30 de julho, uma falha não programada de energia elétrica de cerca de duas horas, da responsabilidade da E-Redes, provocou, segundo a Be Water, uma «ligeira degradação da qualidade do efluente tratado». A 10 de agosto, entre as 21h00 e as 00h00, caudais afluentes superiores à capacidade hidráulica disponível levaram a uma «rejeição de emergência através do ponto de descarga existente a montante da ETAR». A 23 de agosto, entre as 19h30 e as 22h30, e de novo a 24 de agosto, entre as 9h00 e as 22h00 — desta vez associado a fortes chuvas —, repetiu-se o mesmo mecanismo de bypass hidráulico. Nesse mesmo dia 24, pelas 12h20, a empresa reportou ainda um «extravase do manto de lamas dos decantadores secundários», atribuído a «condições atuais de subdimensionamento da instalação». Na reunião de 16 de setembro, Armindo Ramalho falou em pelo menos seis descargas extraordinárias entre 7 e 30 de agosto; os documentos agora obtidos documentam quatro dessas ocorrências e ajudam a explicar a sua origem técnica.

Num dos comunicados, datado de 11 de agosto, a Be Water reconhece que a situação está «diretamente relacionada com as atuais condições de exploração da instalação, que se encontra a operar acima da sua capacidade hidráulica e de tratamento de projeto», acrescentando tratar-se de algo «regular e sucessivamente comunicado e conhecido, incluindo para efeitos de projeção do aumento da capacidade de tratamento». A empresa confirma ainda que o concurso público internacional para a obra de ampliação da ETAR de Ermesinde e Alfena foi lançado a 2 de agosto, ao abrigo do Programa Norte 2030, com fundos europeus — a mesma obra que o presidente da Câmara Municipal de Valongo, Paulo Esteves Ferreira, anunciou publicamente na manhã de 16 de setembro, horas antes da denúncia de Ramalho na reunião do executivo.

No texto integral da intervenção que preparou para a reunião, Armindo Ramalho introduz uma ressalva que não chegou a ser destacada publicamente: as medições de H2S foram feitas por quatro moradores de Ermesinde, devidamente equipados, em apenas quatro dos «centenas de boeiros à superfície» que existem ao longo da Ribeira da Gandra. «As concentrações de H2S podem variar consoante o vento, temperatura, chuva, caudal e ventilação da rede, pelo que estas medições representam apenas uma fotografia daquele momento», escreve o vogal.

A denúncia de Ramalho respondia também, ainda que indiretamente, à Câmara Municipal. Horas antes da reunião, o presidente Paulo Esteves Ferreira tinha afirmado, em comunicado, que o município «não quer ficar à espera que outros descubram os problemas do Leça por nós». Na reunião, Ramalho citou a frase e respondeu de imediato: «Pois não, Presidente. Não precisam de esperar, basta seguir a oposição. Nós denunciamos, vocês aparecem depois.»

Até à data de publicação desta notícia, nem a Be Water nem a Câmara Municipal de Valongo comentaram publicamente o conteúdo destes cinco comunicados enviados à ARH Norte.

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