Sala da reunião do executivo da Junta de Freguesia de Ermesinde, 16 de setembro de 2026Rodrigo Cruz / Valongo Online

Em reportagem no local, o Valongo Online assistiu à reunião de executivo da Junta de Freguesia de Ermesinde, realizada esta quarta-feira, dia 16 de setembro, na qual o vogal Armindo Torres Ramalho apresentou vídeos e medições técnicas que apontam para descargas de esgoto na Ribeira da Gandra e na Rua de Luanda, que desaguam no Rio Leça. A denúncia gerou um confronto direto com o presidente da Junta, Miguel Oliveira, que reconheceu a relevância da informação mas contestou a forma como foi trazida a público.

A denúncia, com números

Segundo Armindo Ramalho, entre os dias 7 e 30 de agosto foram registados pelo menos seis descargas extraordinárias (“bypass”) na rede, algumas com duração de várias horas. A 24 de agosto, entre as 14h10 e as 15h40, foi feita uma pesquisa de sulfureto de hidrogénio (H2S) em quatro pontos da rede de águas pluviais: Rua da Gandra n.º 32 (10,3 ppm) e n.º 114 (13,8 ppm), Rua de Luanda n.º 120 (14,2 ppm), e Praça 1.º de Maio, junto à cafetaria (17,6 ppm) — uma média de cerca de 14 ppm. O H2S é um gás tóxico e inflamável, e a sua presença numa rede subterrânea com múltiplos pontos de ligação à superfície levanta, segundo o vogal, uma questão de segurança para além do incómodo do odor.

Nos vídeos exibidos na reunião, gravados nos mesmos locais, veem-se descargas com papel higiénico e matéria orgânica a correr a céu aberto junto a zonas habitacionais e comerciais. Ramalho sublinhou que as leituras são pontuais e não permitem, por si só, determinar a origem exacta dos efluentes — mas defendeu que a situação exige investigação técnica imediata das entidades competentes. O vogal afirmou ter enviado a denúncia, a 8 de setembro, à Be Water Águas de Valongo, a empresa municipal de águas e saneamento.

O confronto interno

O vogal do executivo António Pinheiro, eleito pela Iniciativa Liberal, questionou publicamente a base técnica da denúncia: quem validou a relação entre as medições e a origem da poluição, desde quando o colega tinha conhecimento dos dados — recolhidos a 24 de agosto, quase um mês antes desta reunião —, e se as entidades competentes já tinham sido formalmente informadas, e em que datas. Ramalho respondeu que, perante uma suspeita, “temos que ir para o campo” em vez de esperar por validações prévias.

A resposta de Miguel Oliveira

O presidente da Junta reconheceu que a informação apresentada “é importante” e deve ser reconhecida “venha ela de onde vier”, mas criticou o que descreveu como o tom alarmista da exposição, defendendo que a informação deveria ter sido encaminhada de imediato às entidades competentes em vez de exposta publicamente primeiro. Segundo Oliveira, o processo relativo à ETAR já estava referenciado desde janeiro de 2025.

Miguel Oliveira anunciou o arranque, no primeiro trimestre de 2027, das obras de requalificação e ampliação da ETAR de Ermesinde e Alfena — um investimento de 17,75 milhões de euros — e adiantou um compromisso da Câmara Municipal de Valongo com a Be Water Águas de Valongo para a realização de uma vistoria com recurso a robô aos canais e à ribeira.

O contexto

A poluição do Rio Leça não é um problema novo: já em 2014 o então presidente da Câmara de Valongo, José Manuel Ribeiro, tinha anunciado publicamente obras de despoluição da bacia do rio, promessa repetida em 2017 e nunca concretizada na zona agora denunciada. Mais recentemente, entrou em consulta pública um Plano de Gestão Específico de 81 milhões de euros para a recuperação do Rio Leça entre 2027 e 2034, envolvendo os municípios de Valongo, Maia, Matosinhos e Santo Tirso — que prevê, entre outras intervenções, a reabilitação de 250 km de redes de coletores de esgoto em toda a bacia, precisamente o tipo de infraestrutura apontado na denúncia de Ramalho.

Horas antes desta reunião, a Câmara Municipal de Valongo já tinha divulgado uma nota de imprensa a anunciar um plano de ação para o Rio Leça — com inspeções às ribeiras da Balsinha e da Gandra a partir de outubro — e a confirmar o arranque da ampliação da ETAR de Ermesinde. Até à data de publicação desta notícia, porém, nem a Câmara, nem a Be Water, nem a APA responderam formalmente às medições e aos vídeos apresentados nesta reunião.

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